A dependência química é uma condição que raramente se limita ao indivíduo. Silenciosa e progressiva, ela se infiltra nas relações familiares, altera rotinas, provoca rupturas emocionais e deixa marcas profundas em todos que convivem com o problema. Pais, cônjuges, filhos e irmãos acabam, muitas vezes, adoecendo junto — ainda que não façam uso de substâncias.
Com mais de oito anos de atuação dedicada à área, a psiquiatra Dra. Natalia Negreiros construiu sua prática clínica a partir de uma constatação clara: quando existe um dependente químico na família, o sofrimento é coletivo. “Ao longo da minha trajetória, acompanhei não apenas a dor de quem enfrenta a dependência, mas também o desgaste emocional intenso de quem está ao redor, tentando ajudar, sustentar, compreender e, muitas vezes, sobreviver a essa realidade”, afirma.
Segundo a especialista, é comum que familiares desenvolvam ansiedade, depressão, culpa, exaustão emocional e até comportamentos de adoecimento silencioso. Ainda assim, eles costumam ser invisibilizados no processo terapêutico, como se o foco exclusivo no paciente fosse suficiente para a recuperação. “O tratamento que ignora a família perde uma parte essencial do caminho”, explica.
A abordagem defendida pela Dra. Natalia vai além da medicalização ou da interrupção do uso de substâncias. Ela propõe um cuidado integral, que reconhece a família como parte ativa do tratamento — não apenas como suporte, mas como um núcleo que também precisa ser acolhido, orientado e cuidado. “Tratar a dependência química é também oferecer espaço de escuta para quem caminha ao lado do dependente, muitas vezes exausto, confuso e machucado”, destaca.
Esse olhar ampliado permite não só melhores resultados clínicos, mas também a reconstrução de vínculos e a restauração da saúde emocional familiar. Para a psiquiatra, cuidar da família é fortalecer o processo terapêutico como um todo. “Quando a família é acolhida, o tratamento ganha mais sentido, mais sustentação e mais possibilidades reais de recuperação.”
Em um campo ainda marcado por estigmas e julgamentos, o trabalho da Dra. Natalia Negreiros se destaca por devolver humanidade ao cuidado em saúde mental, lembrando que, na dependência química, ninguém adoece sozinho — e, por isso, ninguém deveria se tratar sozinho.




