Psicóloga Anny Castro comenta caso de estupro coletivo em Copacabana
A psicóloga Anny Castro, especialista no atendimento a vítimas de violência sexual, comentou sobre o caso recente envolvendo cinco jovens acusados de estuprar uma adolescente de 17 anos na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Para a especialista, casos como esse revelam não apenas a gravidade da violência sexual, mas também os impactos profundos que esse tipo de crime pode provocar na vida da vítima.
“O abuso sexual não termina quando o ato acaba. Ele continua na mente, no corpo, na intimidade e muitas vezes no silêncio de milhares de mulheres que acabam carregando culpas que nunca foram delas”, explicou a psicóloga.
Segundo Anny, ainda existe muito desconhecimento sobre o que caracteriza a violência sexual.
“Muitas pessoas ainda acreditam que abuso sexual só acontece quando há penetração, mas isso não é verdade. O abuso sexual envolve qualquer ato de natureza sexual sem o consentimento da vítima. Isso inclui toques indesejados, carícias forçadas, beijo forçado, chantagem para obtenção de favores sexuais, algo infelizmente comum em relações de poder, como no ambiente de trabalho. Também envolve exibicionismo, obrigar alguém a assistir pornografia ou presenciar atos sexuais, divulgar imagens íntimas sem consentimento ou manipular emocionalmente alguém para obter fotos íntimas.”
De acordo com a psicóloga, a neurociência explica que experiências de violência extrema ativam sistemas cerebrais relacionados à sobrevivência.

“Quando uma pessoa sofre uma violência sexual, o cérebro interpreta aquela situação como uma ameaça extrema à integridade física e psicológica. Estruturas cerebrais ligadas ao medo entram em estado de hiperativação, enquanto áreas responsáveis pela regulação emocional e pelo pensamento racional podem reduzir temporariamente sua atividade. Isso faz com que o organismo entre em um estado de sobrevivência, liberando hormônios do estresse como adrenalina e cortisol.”
Esse processo também ajuda a entender por que muitas vítimas apresentam respostas automáticas durante o abuso, como paralisia ou incapacidade de reagir.
“Muitas vítimas se culpam por não terem reagido, mas a ciência mostra que o cérebro pode entrar em um estado de imobilidade involuntária diante de ameaças extremas. É uma resposta biológica de sobrevivência, não uma escolha da vítima”, ressaltou a psicóloga.
A especialista também destaca que o trauma pode impactar diretamente a forma como o cérebro armazena memórias.
“Em situações traumáticas, estruturas responsáveis pela organização da memória podem ter seu funcionamento alterado. Isso faz com que a lembrança do evento não seja registrada como uma memória comum, mas sim de forma fragmentada e altamente emocional. Por isso surgem sintomas como flashbacks, lembranças intrusivas e reações físicas intensas diante de estímulos que lembram o trauma.”
Entre as possíveis consequências estão dificuldades na vida sexual, como anorgasmia, vaginismo, desconforto ou aflição diante do toque físico e sensação de invasão durante relações íntimas. Muitas vítimas passam a evitar contato físico ou situações de intimidade porque o corpo passa a associar o toque à sensação de ameaça.
Além disso, podem surgir transtornos psicológicos como ansiedade, depressão e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
A psicóloga também chama atenção para mudanças comportamentais que podem surgir após a violência.
“Em alguns casos, mulheres que sofreram abuso passam a desenvolver sentimentos intensos de culpa e vergonha, mesmo não tendo nenhuma responsabilidade pelo crime. Como consequência, algumas começam a atacar a própria imagem ou a própria feminilidade. Isso pode aparecer em comportamentos como descuidar da aparência, vestir-se de forma mais desleixada ou até cortar drasticamente o cabelo.”
Segundo a especialista, esse comportamento pode estar ligado a um mecanismo psicológico de defesa.
“Inconscientemente, algumas vítimas podem tentar reduzir aquilo que acreditam que as tornou alvo da violência. É como se o cérebro tentasse criar uma sensação de proteção, diminuindo características que a pessoa associa à própria exposição ou vulnerabilidade. Mas é importante reforçar que a responsabilidade pela violência nunca é da vítima.”
Anny Castro ressalta ainda que o modo como a vítima é acolhida após a violência pode influenciar diretamente no processo de recuperação.
“A neurociência do trauma mostra que, nas primeiras horas e dias após uma experiência traumática, o cérebro ainda está consolidando a memória do evento. Nesse período, a forma como a experiência é relembrada pode influenciar na intensidade com que essa memória será registrada.”
Por isso, segundo a psicóloga, não é recomendado pressionar a vítima a relatar repetidamente o que aconteceu logo após o trauma.
“Forçar a pessoa a reviver emocionalmente o ocorrido nesse momento pode intensificar a consolidação da memória traumática. O mais importante nesse período inicial é oferecer segurança, acolhimento e suporte emocional, respeitando o tempo da vítima.”
A psicóloga reforça que o processo de elaboração do trauma deve ocorrer de forma gradual e com acompanhamento adequado.
“Quando a vítima se sente segura e amparada, o cérebro pode reorganizar essa memória traumática de forma mais adaptativa. O tratamento psicológico adequado ajuda a reduzir a resposta de ameaça do cérebro e permite que a pessoa retome gradualmente sua sensação de segurança e controle.”
A psicoterapia é fundamental no processo de recuperação de vítimas de abuso sexual. Com o acompanhamento psicológico, a pessoa pode reduzir o sofrimento emocional, reconstruir sua autoestima e retomar o controle da própria vida. Esse processo permite que a vítima volte a ter qualidade de vida e siga sua trajetória com mais segurança e fortalecimento emocional.




